quarta-feira, 28 de outubro de 2009

A FLOR DO DESERTO



Há alguns anos, eu ainda estava no ensino médio quando li uma reportagem, na revista Seleções Reader´s Digest , sobre uma modelo chamada Waris Dirie, que contava um drama real vivido por mais de 50 milhões de garotas na Sómalia.

Waris nasceu numa família tradicional de doze filhos, numa tribo de nómadas do deserto africano. Recorda-se da sua infância despreocupada – as brincadeiras com os irmãos, as corridas de camelos, as mudanças da família para os novos locais de pastagem... Até ao dia em que chegou a sua vez de conhecer a anciã que lhe iria aplicar o antigo costume imposto à maioria das garotas somalis: a mutilação genital.

Waris foi mutilada aos cinco anos de idade, numa espécie de rito de passagem.O seu relato impactante mostra a crueldade e o preconceito aos quais são submetidas as meninas somalis: Seus clitóris são extirpados com objetos rudimentares, como facas, tesouras e lascas de pedras, sem preocupação com higiene, pondo em risco milhares de vidas. Após a amputação do clitóris e dos pequenos lábios, os grandes lábios são secionados, aproximados e suturados, sendo deixada uma minúscula abertura necessária ao escoamento da urina e da menstruação.

Quando, já com doze anos, o seu pai tentou negociar o seu casamento com um desconhecido de sessenta anos em troca de cinco camelos, Waris desapareceu. Após uma extraordinária fuga pelo deserto, conseguiu chegar a Londres, onde trabalhou como empregada do embaixador da Somália, até ao regresso deste a África. Ficou sozinha e sem dinheiro e com poucos conhecimentos da língua inglesa, Mas foi descoberta por um fotógrafo de moda.

Fora do seu país e longe das imposições de sua cultura, ela se tornou uma modelo conhecida internacionalmente, o que lhe permitiu denunciar ao mundo a barbárie a que são submetidas às mulheres somalis.

Pesquisando um pouco mais sobre o assunto descobri que pelo menos 150 milhões de mulheres e meninas são afetados por essa prática cruel, que continua a ser realizada na África, mas também na Ásia, Europa, América e Austrália.

Mas descobri também que a grande porta voz hoje contra essa prática é exatamente ela: Waris Dirie. Ela é uma ativista de direitos humanos, embaixadora da ONU, uma supermodelo, e escritora de um best-seller intitulado : A Flor do Deserto. Já recebeu vários prêmios por seu trabalho e seu empenho na luta contra a mutilação genital feminina.

Waris Dirie significa flor do deserto, uma flor que pode florescer até mesmo no clima mais áspero.

2 comentários:

Anônimo disse...

Joyce, vc escreve muito bem!
Parabens!
Que história impressionante! Caramba, quanta garra essa menina tem! Apesar dos costumes, da cultura e dos pais ela sabia o que queria e o que era certo e errado!

Precisamos de mais flores do nordeste!

francisca maria disse...

Joyce nos contou uma lição de vida.
A história da modelo é comovente e surpreendente.E a forma como joyce descreveu os fatos é muito interessante.